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| Nome: Ador�veis Drag�es |
| Idade: Na flor dos 25 |
| Moro em: Pernambuco. |
| Gosto de: Cerveja, cinema, boa conversa, boa literatura e, sem falso moralismo, sexo |
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18/01/2007 17:51
Daniela ficou sentada no único canto do quarto onde a luz não batia, os braços cruzados abraçavam as pernas, encolhidas. Ela observava as lágrimas segando-a aos poucos, como se desfocassem sua vida inteira. Cravou as unhas nos ombros tentando conter a raiva crescente e mortífera, e o sangue correu lânguido e morno sobre a pele muito branca. Fechou os olhos e quis morrer.
Daniela era dessas meninas que escondem um mundo dentro de seus frágeis corpos. Sempre fora reservada e introspectiva, o que a fez uma mulher de poucas amizades. Andava sempre de cabeça baixa, procurando não chamar a atenção de ninguém no meio da rua. Mas era inútil. A beleza natural era responsável por atrair a atenção dos homens e a inveja da maioria das mulheres. Por isso, Daniela odiava ser bela. Odiava a beleza. Odiava.
Era comum trancar-se sozinha no banheiro durante horas, muitas vezes com o chuveiro ligado. O som da água corrente abafava os gemidos de dor emitidos a cada novo corte. Desde criança ela começou a torturar-se, como se, desta forma, pudesse expurgar o pecado de ser bela. Aos 22 anos, tinha o corpo completamente marcado. Marcas de um ódio antigo e singular. Para esconder os cortes, andava sempre com roupas muito cumpridas, o que a fazia parecer ter mais idade do que realmente tinha.
Seu pai, um militar aposentado, rígido em regras e valores morais, aprovava e incentivava a maneira de se vestir de sua única filha. Gabava-se sempre de ter uma filha que serviria de exemplo para qualquer menina. Secretamente, no entanto, desde a infância de Daniela, ele a observava com olhos de cobiça. Seus atos incestuosos fizeram parte da história da filha desde a idade mais tenra, quando ela ainda acreditava na figura de um pai amoroso e companheiro.
Agora, no entanto, ele jazia inerte no chão do quarto. Ao seu redor, lentamente, seu sangue foi-se acumulando, como se quisesse alcançar Daniela, tocá-la uma última vez. O sangue de seu sangue; a carne de sua carne; a dona de todos os seus desejos.
Ela não ouviu os gritos da mãe quando esta adentrou o quarto e deparou-se com o quadro horrendo. Em sua cabeça havia espaço apenas para uma nova promessa: a de que ele jamais a tocaria novamente. Sentia um alívio percorrer-lhe o corpo inteiro, como se estivesse expulsando todos os demônios interiores.
Quando os policiais, truculentos, a ergueram do chão, agora lavado de sangue, ela já não sentia culpa. O corpo estava leve e a alma em paz. Era a primeira vez em anos que ousava sorrir em público. Um sorriso iluminado e verdadeiro, como o sorriso de uma criança. Ao chegar a porta, Daniela virou-se e observou o corpo do pai, suas pegadas firmes deixando marcas sob o chão. A carne de sua carne misturando-se, uma última vez, ao sangue de seu sangue. Enfim, ela fora liberta.
Mariana Lira
enviada por Adoráveis Dragões
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