Nome: Ador�veis Drag�es
Idade: Na flor dos 25
Moro em: Pernambuco.
Gosto de: Cerveja, cinema, boa conversa, boa literatura e, sem falso moralismo, sexo
N�o Gosto de: Gente besta


:: Arquivos:

:: Ado��es

:: Blogs Favoritos

http://www.oralsemfrescura. blogger.com.br
Link
Link
Link
Link


:: Links

Chiplegal.com
Link
Link
Link


:: Template por



07/03/2007 12:24
Hoje eu vi um anjo. Ele estava sozinho, perambulando pelas ruas do Recife. Trazia no corpo, apenas uma túnica, mulambenta e maltrapilha, que me pareceu grande demais. Cabelos desgrenhados, soltos ao vento, pés descalços para sentir o chão, ainda úmido da chuva que caiu na noite anterior, e uma candura no olhar que me despertou as emoções mais profundas, me atacou o peito de súbito e fez desmanchar em lágrimas.

Ele vinha chutando pedrinhas no caminho, brincando com o que lhe convinha e parecia ver naquele ato tão simplório toda a grandeza do mundo. Estava compenetradíssimo. Sorria gostoso quando as pedrinhas obedeciam aos seus chutes desajeitados e dava pequenos pulinhos como se somente aquilo pudesse lhe fazer, naquele momento, o ser mais feliz, mais em paz, mais sereno.

Sentei-me no meio fio a fim de observá-lo mais atentamente. Não podia desperdiçar aquele instante único, aquela fração de segundos, na qual a felicidade se mostrava de forma tão despojada para mim. As poucas pessoas que passavam na calçada ainda vazia olhavam-me com estranheza, como se eu cometesse um crime ao parar a roda viva da vida por alguns poucos minutos. Continuei ali, sentada, vendo a vida de verdade acontecer, bem diante dos meus olhos.

O anjinho continuou a brincar, serelepe, agora pulando nas poças que se formaram nos desníveis da calçada. Quando ele gargalhava, eu gargalhava com ele, e brincava com ele e era feliz com ele. E, de repente, sem que eu percebesse, comecei a me ver naquele mulecote alado, relembrando das minhas peraltices de menina que andava somente de calcinha e descalça no meio da rua, soltando pipa, girando piões multicoloridos e subindo em árvores.

O anjo, então, parou e fixou seus olhos nos meus, aqueles olhos tão doces e meigos. Deu um sorriso safado e muito lindo e pôs-se a correr em minha direção. Quando estávamos tão perto que nossos calores quase se misturavam, ele estendeu a mãozinha e disse: vamos brincar comigo! Instintivamente, recuei do convite e explique que não poderia, pois estava muito velha para brincadeiras e tinha outros afazeres mais importantes. Ele baixou a cabeça, entristecido, fitando os pezinhos miúdos e bem sujinhos.

Mas a verdade era que eu quis brincar com ele. Pular nas poças de água, correr no meio da rua, chutar pedrinhas e não me preocupar com nada. Olhei para ele e perguntei onde morava. Ele levantou a cabeça, encolheu os ombrinhos e disse calmamente que não tinha casa, que morava logo, ali, na esquina, com a mãe e seus irmãos, que ainda dormiam. Depois sorriu, o maior sorriso do mundo, e disse: “mas eu ainda posso brincar. Vamos brincar comigo?”.

Apenas meus olhos conseguiram exprimir meu espanto. Ou seria revolta? Ou seria emoção, mesclando tudo isso e talvez outras coisas sobre as quais eu nunca poderia ter conhecimento? Segurei firmemente na mãozinha estendida diante de mim e fui pular as poças de água, chutar as pedrinhas, ser feliz. Naqueles poucos momentos, no meio de alguma rua no Centro do Recife, eu voltei a ser a criança que brincava serelepe, nas ruas de minha infância.

Então, sem dizer palavra, o anjinho foi-se embora, dando passinhos rápidos e curtos, equilibrando-se no meio fio, como se fosse um trapezista. Ele brincava com a vida e também brincou comigo. Quando perdeu o equilíbrio, virou-se sorridente, despediu-se e foi-se embora, para enfrentar a vida que o engolia todos os dias.

Mariana Lira

enviada por Adoráveis Dragões






Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)